Diário

A marca que ganhou o meu nome

Por Bro

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4 min de leitura


A ideia de trabalhar com activewear veio de uma necessidade minha. Eu era professora de academia — dava aula de musculação e de ginástica localizada — e tinha muita dificuldade de comprar roupa pra treinar. O que existia era quase tudo importado.

Era a época das meias brilhosas, a meia Dansky. Ou do sunquine, uma peça parecida com um biquíni, meio hot pant com top. Ou daquela mesma meia Dansky usada com um body, que na época se chamava colant. E os colants ficavam pequenos no meu corpo, as calcinhas ficavam pequenas, porque todo mundo fazia só tamanho único — não existia P/M/G. Eu sempre me achei um pouco fora do padrão que aquelas roupas pressupunham.

Foi quando consegui uma costureira pra fazer roupa pra mim. Eu ia à loja de tecido, escolhia tudo, desenhava o modelo, explicava como queria. E ia dar aula vestindo aquilo.

Faz mais de uma

A marca começou nas minhas alunas, antes de eu saber que era uma marca.

Elas reparavam na roupa que eu usava. Começou um burburinho na academia, e logo veio o pedido que mudou tudo: não faz só a sua, faz mais de uma, vai fazendo que a gente vai comprando.

Eu comecei a fazer, e comecei a vender. Nunca entrou capital de fora — desde o primeiro dia foi só dinheiro reinvestido, o que entrava voltava pra dentro. É assim até hoje.

Logo apareceram pessoas que queriam revender as roupas também. Eu dava aula, comprava tecido, levava pra costureira, procurava gente pra experimentar as peças — porque, como me achava fora de padrão, precisava de corpos diferentes do meu pra testar. A roupa foi crescendo sem que eu tivesse parado pra decidir que aquilo era um negócio.

A sala virou mesa de corte

Por um tempo, tudo aconteceu dentro de casa. Mas dentro de casa foi ficando pequeno.

Coloquei uma tábua de compensado em cima da mesa da sala, e a sala virou uma grande mesa de corte. Tinha tecido em cima do sofá, tinha gente entrando e saindo o tempo todo. Meu filho mais novo tinha uns cinco, seis anos. A nossa casa tinha deixado de ser uma casa — tinha virado um lugar tumultuado, desconfortável de se viver.

Chegou um momento em que percebi que precisava escolher. Ou eu continuava aquele caminho que tinha começado, ou parava definitivamente. Do jeito que estava não dava: estava atrapalhando a minha família, a minha privacidade, o meu casamento.

Escolhi continuar. Aluguei uma sala na rua Érico Veríssimo, na Barra da Tijuca, parei de dar aula e me dediquei só à confecção. Registrei o CNPJ. Isso foi em 1995.

O nome

O nome veio por último, e não fui eu que escolhi.

Quando registrei a marca, foi com outro nome. Depois de um tempo, esse nome foi contestado no INPI, e eu perdi. Perdi o chão — fiquei sem saber que nome ia botar na marca.

Foi então que percebi uma coisa que já estava acontecendo havia tempo. As pessoas já chamavam a roupa de um jeito só: a calça é da Bro, vou lá na Bro, é da Bro. Bro é como me chamam desde sempre — é o apelido de Ambrosina, o meu nome.

A marca já tinha nome, portanto. Todo mundo já tinha batizado. Só faltava eu fazer o resto: incorporar aquele nome, registrar, criar uma logo, botar o adesivo na roupa. Foi exatamente isso que eu fiz. O nome surgiu de forma orgânica, do meu apelido e do jeito como as clientes falavam de mim.

A legging que não existia

Algumas das primeiras peças que marcaram, eu lembro bem.

Uma vez errei a modelagem. As roupas saíram com a cintura mais baixa do que deviam, e eu estava me preparando pra um evento. Fiquei com o coração apertado, achando que teria um prejuízo enorme. Foi o contrário: vendeu tudo, absolutamente tudo. Estava começando uma moda de cintura baixa que eu nem sabia que existia, e de repente era a Bro fazendo roupa de cintura baixa.

E teve a legging. Hoje parece bobagem dizer isso, mas naquela época fazer uma legging de suplex era uma coisa revolucionária — simplesmente não existia legging de suplex no mercado. O que havia era uma meia de casinha de abelha, e as pessoas montavam conjunto com o tecido dela. Eu olhei aquilo e pensei: de longe, parece que a pessoa está de legging. Por que não fazer uma legging de verdade, com um tecido mais encorpado?

Fiz, e foi um tiro certeiro. Tão certeiro que, quando depois cortei a legging no meio e botei uma listra de outra cor, virou outra febre.

Uma peça só

Naquela época vendia-se a calça e o colant, duas peças separadas. Em algum momento a pergunta apareceu, e não foi exatamente minha: por que não fazer uma peça única?

Comecei a fazer macacão, e foi um sucesso estrondoso. A inspiração não vinha da roupa de ginástica. Vinha dos vestidos que eu via nas revistas — vestidos de grife, de festa. Eu pegava os recortes, os decotes daqueles vestidos e trazia para os macacões de treino.

Quase todas as minhas tentativas de fazer alguma coisa diferente deram certo. E acho que sei por quê: nenhuma delas saiu só da minha cabeça. Todas vieram de prestar atenção — numa aluna, numa vendedora, numa revista, num corpo que a roupa não servia.

O que continua

Olhando pra trás, quase tudo na Bro começou assim: de uma necessidade real, de uma conversa, de reparar no que as mulheres estavam pedindo. Não foi um plano de negócios. Foi uma professora que não achava roupa, alunas que pediram pra eu fazer mais, e a decisão de não parar.

A marca leva o meu apelido porque foram as clientes que a batizaram. Trinta anos depois, é isso que ainda me guia: ouvir, testar, arriscar — e fazer roupa pra mulher que se mexe de verdade.

SOBRE A AUTORA

Bro

Ambrosina lançou a primeira coleção em 1995, no Rio de Janeiro. Trinta anos depois, ela continua no Rio, olhando cada peça que é feita na Bro

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